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Janeiro 3, 2011 / revistaporos

dos arrepios…

Dezembro 13, 2010 / revistaporos

poema-frisson

por Flávio Boaventura, o Boave

Dezembro 1, 2010 / revistaporos

O silêncio que se escuta com os poros

 

 

 

 

 

O seu silêncio tem cheiro de chuva e ao mesmo tempo me faz lembrar uma canção de ninar. Seria o silêncio a verdadeira trilha sonora de um filme, como nos disse Michelangelo Antonioni, o cineasta que melhor retratou a incomunicabilidade e os desencontros amorosos? E o que dizer de Buster Keaton, Charles Chaplin, entre outros, com as forças do cinema mudo? Cinema mudo, que muitas vezes tinha música, legenda e silêncio, seguidos de mais música, legenda e silêncio. John Cage e seus 4’ 33’’ nos mostrou que é no silêncio que os ruídos deslizam mais rápido. O silêncio é raro e precisa ser produzido, não é natural. Os seres humanos, os demais animais, a água, o vento, as nuvens, o sono dos bebês, e as pedras em movimento (rock and roll) não são naturalmente silenciosos. Até um monge tibetano é pouco silencioso. Foi dito por línguas tortas e atrevidas que o silêncio foi o ruído ouvido logo após o estouro da primeira bomba atômica. Ao tentarmos interpretar o silêncio, invariavelmente o reduzimos… ao tentarmos experimenta-lo, não raro, sucumbimos. Há aqueles que temem o silêncio dos outros, e assim o silêncio dos inocentes se torna o ruído dos acusados – “Você tem o direito de permanecer calado.”, mas quem de fato sabe produzir silêncio? O silêncio consegue ser mais revelador do que a verborragia, artimanha de tagarelas e prolixos astutos. Para esconder algo, é melhor tagarelar do que se silenciar, pois, por detrás das palavras, cabem até elefantes. Há o silêncio dos interrogados, dos apaixonados, dos que emitem sons, mas não são escutados (sim, há silêncios de emissor e de receptor, em meio a ruídos de toda sorte). Há o silêncio dos intelectuais, dos cidadãos, e até mesmo do verdureiro da esquina. Há o silêncio da noite, o dos inocentes, o dos silenciados, o dos que aqui escrevem. O silêncio é o que se escuta com a pele e seus sofisticados ouvidos, os poros.

por rogério felipe

Novembro 7, 2010 / revistaporos

A leitura dos clássicos

 Estou lendo “Dom Quixote”. Há dois meses venho me embrenhando pacientemente, a conta-gotas, nas histórias do Cavaleiro da Triste Figura e seu fiel escudeiro Sancho Pança. É a terceira vez que tento ler o romance. Abandonei as outras duas, mas desta vez “peguei a veia” e vou até o fim, com certeza. Ler um clássico é como tomar um bom vinho: tem de ser aos poucos, degustando cada momento, cada “sabor”. Diferentemente dos livros lançados no nosso tempo, onde a leitura muitas vezes se dá de uma empreitada.

Em tempos velozes, de MTV, internet, shopping-center, trânsito e correrias pelos mais diversos motivos, pergunto-me até quando resistirão os clássicos, principalmente aqueles que exigem uma leitura mais detida, cuidadosa. Não sei até que ponto a “Geração Y” vai valorizar os clássicos. Mas não vamos culpá-los, pois muitos de nós (da “geração livros”), na idade deles, não tínhamos fôlego para encarar, como eles fazem com certa euforia, leituras como os calhamaços e seriados “Herry Potter” e “Senhor dos Anéis”, só para ficarmos nesses exemplos. Acredito que se lê hoje como nunca, inclusive na própria rede.

Só não se sabe se a nova geração chegará aos clássicos ou se estes ficarão relegados aos cursos de letras ou aos minguados amantes da literatura. Será que sempre foi assim? A alta cultura, historicamente, sempre foi consumida por uma certa elite intelectual? A grande massa sempre consumiu obras fáceis, buscando o puro entretenimento, sem nenhuma pretensão de buscar o apuro humano?

São questões sem resposta e que certamente sobre as quais nunca se chegará a um consenso. Posto isto, torna-se desnecessário elucubrar profundamente sobre a relação entre leitura de qualidade e consumo fácil. Bem como é desnecessário levantar aqui teorias e proposições sobre o real valor dos clássicos. Há uma miríade de autores que escreveram sobre o tema (Ítalo Calvino, Harold Blom, Umberto Eco, Alberto Manguel etc.).

Mas a tal velocidade me deixa angustiado, confesso. Ao ler um clássico temos a real consciência do tempo que temos pela frente, principalmente para ler o que em princípio planejamos no nosso íntimo, no tempo de vida que nos resta. Vejo muitos escritores, quando perguntados o que estão lendo no momento, afirmarem que mais releem do que acompanham os lançamentos. Ao ler “Dom Quixote” fico me perguntando se relerei o romance futuramente. Tenho quase certeza que não voltarei às histórias do nosso cavaleiro. Preferirei ler ou outros clássicos que ainda não tiver lido ou ler algum livro contemporâneo.

A angústia a que me refiro é causada também pelos inúmeros livros lançados atualmente. Nunca se publicou tanto. Já li bastante o Kafka e outros escritores, mas a minha lacuna clássica é enorme. Pretendo ler mais os clássicos do que os contemporâneos – na proporção de três por um; eis meu projeto, que pode ser abandonado no próximo lançamento do Paul Auster. A proposta é tentadora, pois nesses dois meses de “Dom Quixote” poderia ter lido pelo menos uns seis livros recentes. O fator “quantidade” de leituras sempre atiça nossa consciência.

Enquanto leio pacientemente meu “Quixote” vem aquele sentimento de culpa (leia-se: o tempo passando e eu agarrado) por não ter lido ainda o recente Nobel Vargas Llosa, o Orhan Pamuk, o Mia Couto, o Lobo Antunes, o Salman Rushhdie, o Ricardo Piglia, o Ernesto Sábato. Sem falar nos mais recentes Agualusa, Will Self, David Foster Wallace, Comarc McCarthy – pretendo ler todos. Muitos deles se tornarão clássicos com o tempo, para aumentar minha angústia. Convido os meus dois colegas desta Poros (ou quem se habilitar) a falar um dia desses dos clássicos e de suas angústias (se as houver), em suas caminhadas literárias.

Propus-me uma tarefa inusitada: após ler todos os clássicos (pelo menos os mais famosos), vou me embrenhar em dois livros: o “Ulisses” (Joyce) e o “Homem sem qualidades” (Robert Musil). Deixei os dois por último. Depois de fazer uma lista de clássicos a ler, baseado em inúmeras listas de especialistas, planejando o tempo que me resta de vida (se eu chegar aos 70 já estou no lucro), pego-me rindo de mim mesmo, tamanha a minha inocência na pretensão. Volto, então, pacientemente, à leitura do “Dom Quixote”.

Novembro 1, 2010 / revistaporos

A alegria é uma arma quente.

 

 

 

 

A alegria é uma arma quente, já nos dizia o refrão de uma música tocada e cantada por aquele famoso quarteto de Liverpool (The Beatles – Happiness is a Warm Gun). Muitas vezes cantarolo esta música ao caminhar pelas esquinas que fazem parte do meu cotidiano. Noutras vezes utilizo outra canção, outro refrão. O fato é que sinto a necessidade de musicar cada passo, cada momento vivido, cada território atravessado. Isso funciona tal como uma espécie de trilha sonora necessária para levar a Vida adiante e ao mesmo tempo ser por ela levado.

As esquinas, territórios de incertezas, de militâncias, de encontros, e os refrões musicais, os ritornelos, para usarmos um importante conceito de Deleuze e Guattari. Por sua característica de cruzamento de linhas, uma esquina nos oferece a possibilidade de sairmos de um território e adentrarmos n’outro. Em uma Vida, quantas esquinas! Não se sabe o que há de vir em uma esquina, de que tipo de encontros ela será palco, por isso mesmo, esta condição de territorialidade, costumo cantarolar ao atravessa-las, e suponho até que você faça o mesmo. Os ritornelos funcionam como uma espécie de “arma” que utilizamos ao sair de um território, desterritorializarmos, assim como quando em seguida, retornamos, reterritorializamos. Quando saímos, enquanto estamos fora, quando retornamos, eis os três movimentos de um ritornelo.

E ao pensar na alegria enquanto conceito, me lembro de uma citação que podemos encontrar no livro Ética de Spinoza O desejo que nasce da alegria é mais forte que o desejo que nasce da tristeza.” que bem poderia ser um dia musicada (se é que isso já não foi feito). Nós precisamos desse tipo de arma, que às vezes nos é tão rara, a alegria, pois segundo Spinoza, esta aumenta a nossa potência de agir. Ao passo que o seu contrário, a tristeza, diminui esta nossa mesma potência.

por rogério felipe

Outubro 24, 2010 / revistaporos

a arte de não seduzir

Ah, o outono, o outono… a estação em que a vida se esvai, as flores murchas caem mortas, as árvores secas lutam para viver.

O outono é a minha estação favorita, porque é a estação da afirmação. É onde a energia das plantas se esvai, e elas usam toda a reserva de energia do sol que armazenaram na fútil tentativa de se afirmar na vida por mais alguns instantes. É quando os rios se enchem novamente e as plantas sugam desesperadamente a água que faltou no verão. Até sob este prisma da imperfeição, a natureza é perfeita.

O misto de cores vivas e mortas comove a todos – o outono é a estação das fotos, é a estação mais bonita, porque nos lembra de nossa finitude, e nos dá uma sensação louca de querer viver, de querer bailar um instante mais pela curta vida. É quando esfria e buscamos um corpo outro para nos aquecer, para compartilhar do nosso silêncio e admiração e solidão por um instante que seja, para que possamos ter alguém para compartilhar da nossa dor que é na verdade uma dor boa, é bom lembrar que esta aventura é efêmera.

É no outono que morro mais, e lembro da minha morte e de todas as mortes de Frederico Manoel de Assis, é no outono que me lembro das tantas vezes em que morri nas mãos dos outros, e das outras tantas vezes em que morri infinitas mortes por minha própria inabilidade. É no outono que bebo mais água e respiro melhor, e sinto a vida querendo viver mais urgentemente. O outono me comove profundamente. É no outono que mais quero viver. É no outono que olho para a face norte da lua e vejo Júpiter no céu fazendo companhia, de longe, à lua, e ao norte de Júpiter vejo a estrela colorida Capella, a estrela bonita que ilumina outras estrelas próximas, e olhar o céu bonito e claro do outono resgata em mim aquela sensação de saudade de algo que eu nem sei o que é – sempre fiquei intrigado por sentir saudade do céu quando olho pra cima à noite.

O outono é, grosso modo, a estação que não seduz – não tem o calor ou os atrativos do verão, nem a beleza branca e os esportes do inverno, não tem os cheiros e as cores da primavera – o outono é sem-graça, bobo, mas tem um gosto bobo de bolo de abóbora, tem a austeridade das cores opacas. O outono é ainda mais bonito porque não seduz. Num mundo em que somos constantemente bombardeados por sons e cores, em que gastamos tanto tempo tentando seduzir simplesmente para que sejamos aceitos entre os nossos pares, o outono desperta aquela beleza, aquela arte da não-sedução. O outono é, e só quem é outonal pode amar o outono, chorar ao se sentir parte de uma estrela distante, querer viver, porque sabe que a vida é esse dom aí, bobo, bobo… fugaz.

Mas chega de mim, chega do que eu acho. Apago-me, anti-ego, e convido você a fechar os olhos e sentir o sangue circulando em suas veias. Ouça seu coração bater. Sinta-se parte.

Agora, saia de si e tente ser árvore, tente ser água, tente ser estrela, tente ser mendigo. Escreva suas impressões. Dê para alguém ler.

Is it alright, is it alright if I tell you how I feel?

por Frederico Manoel Outonal de Assis

Outubro 18, 2010 / revistaporos

Pensar é um exercício raro

Pensar é um exercício raro, embora aconteça com alguma freqüência. Muitas vezes acontece nas costas do pensador, de modo sorrateiro, escapando ao controle de quem está a pensar. É difícil pensar sozinho, ou melhor, nem toda solidão é individual… vamos nos lembrar do encontro de Nietzsche com o pensar de Spinoza, e a tal solidão a dois, como afirmou o “filósofo do martelo”. Pensar, quando se pode agenciar idéias advindas de intercessores, tal como Deleuze e Guattari nos sugerem, através de seus conceitos, traz condições de velocidade e lentidão muito interessantes para este exercício, faz dele uma prática. Pensar remete mesmo a um jogo de velocidades e lentidões, que por sua vez podem se filiar a linhas abstratas e urgentes. Aliás, são muitas a linhas com as quais pensar, se entrelaçar, às vezes até se enforcar. Muitos já tiveram a cabeça colocada a prêmio em razão dos efeitos do exercício do pensar. Pensar é um exercício raro, como já foi dito, e ao mesmo tempo bastante arriscado. Muitos pensam que pensam, especialmente quando se conectam às forças reativas daquilo que o “polidor de lentes” chamava de paixões tristes. Pensam que pensam, mas na realidade, apenas replicam o já dado, patinam na lama, fazem fila tal como famintos pedintes em fim de feira: “Dê-nos mais! Alimente-nos hoje e sempre!” Reparem que estou a destacar o pensar, não necessariamente o pensamento. Faz algum sentido esta diferenciação? Estou a pensar, decido insistir… defendo o pensar enquanto processo, inacabado, em movimento. Já o pensamento, alguns até o tratam como uma espécie de commodities, algo estático, já dado, que pode ser produzido em série, embalado, vendido, consumido: o pensamento do fulano, ou do beltrano. E tem mais, onde reside o pensar, qual o seu logradouro, o endereço do seu desatino? Seria a cabeça o seu lar? O cérebro o seu motor? Ou pensar exige o corpo todo, um e vários corpos, sem dispensar as vísceras.

Pensar difere de reproduzir. O passado é matéria prima.  Pensar é, em suma, pegar as idéias “pétreas” até aquele exato momento, digerir isso tudo e produzir algo novo no espaço e no tempo em que se vive.  É uma definição-clichê, mas é difícil fugir muito disso. Certa feita, assisti a uma palestra de um importante professor de filosofia de uma universidade federal.  Em meio a teorias herméticas que proferia (sabe-se lá se propositais ou não), o professor, com ar cansado de refletir o atual momento da filosofia, decretou:  “Sabe o que eu acho mesmo? Acho que o professor de filosofia tem de voltar a pensar”.  Depois de quase uma hora de palestra ele me solta essa pérola. Descobriu a pólvora! Tudo bem que a filosofia, como muitas outras disciplinas, não tem proposto lá muita coisa nos últimos tempos. Por que o tal professor, pago (com dinheiro público) pra pensar,  demorou tanto a chegar à conclusão (pensando, portanto) de que os professores de filosofia (ele inclusive) não estava pensando?

Tive um colega de classe que falava que a filosofia (a história da filosofia, os filósofos) apenas requentava Aristóteles: ou 1) adicionava pequenos detalhes no que ele já tinha dito/escrito, ou 2) negava-o por completo ou 3) repetia-o com outras palavras.  Sempre achei um tanto simplista a teoria do meu amigo. Texto vai, texto vem, leituras e mais leituras, hoje admito que dou um pouco de razão a ele.  Pouco se cria.

O pensamento de fato é um exercício raro. Na maior parte dos nossos dias apenas tiramos conclusões do material de que dispomos na memória, somando inconscientemente a este mecânico exercício uma ou outra preferência pessoal (penso nos moldes de Nietzsche porque gosto dele; sigo a linha de raciocínio de Hume porque julgo-a a mais adequada para o ato de pensar etc.). É até aceitável que a “angústia da influência” (como propor algo original depois de tudo o que já se falou?) cause um desânimo ao ato de pensar – mais cômodo ver tv. Mas o pior covarde é aquele que, conscientemente,  não se entrega ao esforço mínimo de “pensar por si”,  como queria Kant. E passa a vida vivendo a autonomia dos outros.

 

 

(por-os) três